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valesca de assis* valesca@gazetadosul.com.br
Tendo de passar o resto de meus dias numa ilha deserta, talvez eu pudesse viver sem água potável, sem remédios, sem um chapéu para o sol ou cobertas para o frio. Eu poderia viver, sim, até mesmo sem alimentos. No entanto, não me tirem os óculos, e muito menos os livros! Os óculos, apenas porque sem eles não consigo ler; os livros, porque sempre foram e serão alimento e bálsamo, matéria de indignação e paz, semente e brotação, fruta e sumo, lição e esquecimento.
Das doenças da infância, por exemplo, só lembro os nomes: sarampo, varicela, cachumba. Nenhuma dor, nenhum ressentimento. Minhas lembranças da época são tomadas pelo encanto de poder deitar na cama dos pais – barco de inefáveis fantasias – e ler, e reler os maravilhosos livros recebidos nos aniversários, natais, ou conclusões de ano escolar. Cada história e cada ilustração ganhavam vida nos delírios das minhas febres, e, milagrosos, me faziam sarar.
Na juventude, todos os meus sonhos se realizaram através dos livros, e sobre as primeiras feridas de amor as palavras deitaram linhos embebidos em óleos curativos.
Minha maternidade, preparei-a lendo, e assim entendi cada sentimento do meu bebê. Antes de que a Ciência estivesse convicta, eu já sabia – lendo poemas – que devia falar, cantar, e trocar carícias com o centímetro de gente que se acomodava, crescendo, em minha barriga, e que o tambor do meu coração era ritmo para aquela vida.
Lendo romances, viajei pelo mundo, antes mesmo de deixar as margens da minha aldeia. Através dos filósofos, soube da existência do espírito humano e da sua transcendência em relação a quaisquer riquezas. Na Bílblia, aprendi sobre beleza, justiça e amor ao próximo. Os jornais trouxeram o dia-a-dia do meu país, e a Constituição mostrou-me direitos e deveres. Lendo epitáfios, descobri as virtudes dos meus ancestrais; consultando seus diários, soube a verdade de cada um. Por fim, e não sem esforço, a Literatura ensinou-me a escrever.
Em aparente contradição, costumo citar a Ode ao livro, de Neruda, de que gosto muito: Aprendi a vida da vida/ aprendi o amor com um só beijo/ e não pude ensinar nada a ninguém/ senão quando vivi. Mas, só o faço para confirmar que, querendo aprender a vida, é preciso abeberar-se no pote de mel de um livro.
Valesca de Assis é escritora, autora de Todos os meses
(Ed. AGE)
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